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sábado, 25 de abril de 2009

Discurso de Tomada de Posse do Dr. João Palma

«Excelências, amigos:
Aceitámos este desafio, disponibilizámo‐nos a assumir estas responsabilidades sabendo bem o que nos espera. Apesar de candidatos únicos, a adesão dos sócios confirmou uma lista abrangente, congregadora de apoios de todas as correntes, alguns inesperados. À decisão, corajosa, reconheça‐se, de avançar no actual contexto com este projecto segue‐se agora a tarefa árdua de assumir os destinos do SMMP nos próximos três anos. Temos bem noção dos desafios que enfrentaremos, dos adversários que teremos de combater, dos inimigos que, muito provavelmente, criaremos com a nossa acção. Mas gostamos de desafios, temos ideias e estamos dispostos a bater‐nos por elas. Sentimo‐nos espicaçados pelas dificuldades, e estamos cheios de esperança!
São bem conhecidos os contributos e a importância do SMMP, ao longo da sua história, para a construção do Ministério Publico (MP) democrático, para a definição da sua actual matriz constitucional, bem como do estatuto sócio profissional dos magistrados portugueses. Muito se deve ao trabalho tantas vezes ignorado do SMMP, ao contributo, à perseverança, à abnegação e à valia dos seus dirigentes. Daqui a nossa homenagem a todos os que nos antecederam, e o firme propósito de também nós sermos dignos dessa história.
História do sindicalismo judiciário que hoje, quer em Portugal quer por essa Europa fora, escreve novas páginas de lutas quotidianas.
Ao MP cabem, nos termos da Constituição da Republica e da Lei, elevadas responsabilidades na estrutura e consolidação do Estado de Direito Democrático. O artº 219º da CRP estatui que compete ao MP, entre outras funções, defender a legalidade democrática e exercer a acção penal orientada pelo princípio da legalidade. Num contexto internacional de perigosa desacreditação das instituições democráticas, em que Portugal não constitui excepção, a defesa da legalidade democrática pela magistratura do MP enquanto corpo e o desempenho de cada um dos seus magistrados na sua acção concreta adquirem uma importância acrescida.Ao MP português restam dois caminhos alternativos: ou assume na plenitude as suas responsabilidades decorrentes da Constituição e da Lei e, como magistratura autónoma em relação aos demais órgãos de poder, no respeito da consciência jurídica e da competência técnica dos seus magistrados, dirigidos apenas pelo dever de objectividade e pelo apego à verdade e à legalidade democrática, cumprir aquilo que a sociedade, o interesse público e a democracia esperam de nós; ou, pelo contrário, demitirmo‐nos e recusarmos assumir as funções próprias características duma magistratura, funcionalizando‐nos, porventura em troca de compensações materiais, mas depreciando‐nos e desvalorizando‐nos face a um estatuto constitucional que nos deu e esperou de nós mais do que assim seremos capazes de merecer e justificar, ficando enredados em cumplicidades várias, incapazes de nos livrarmos de amarras e limitações de toda a ordem que sempre nos querem impor, correndo o risco de soçobrarmos, em vez de nos constituirmos num dos defensores e principais pilares do Estado de Direito e por isso da Democracia. Ali exige‐se mais de nós próprios ‐ mais competência técnica, mais capacidade de trabalho, mais empenho, mais brio, mais apurada consciência jurídica, mais capacidade de resistência às adversidades, mais investimento na formação e na especialização, mais organização, mais independência, mais ousadia. As compensações serão infinitamente superiores, a realização profissional e até pessoal substituirão o enfado, a desmotivação, e a frustração.
A alternativa - entre nós porventura com mais eminentes precursores do que seria suposto - será mais cómoda, menos exigente, mais propícia ao carreirismo, ao amiguismo, ao clientelismo, ao clubismo, a cumplicidades de toda a ordem, e potenciará a ascensão meteórica dos que não ousem contrariar vontades declaradas ou supostas, dos que privilegiam os seus poderes pessoais à custa e em detrimento dos superiores interesses do MP e da Comunidade que têm o dever de servir, dos que desprezam e aceitam perder o estatuto de magistrados pelo de funcionários e comissários, desde que compensados com lugares de destaque da hierarquia administrativa e musculada em que muitos pretendem transformar o MP.
O SMMP assumirá sem hesitações nem receios de qualquer tipo, com a clareza e a frontalidade que devem caracterizar todos os magistrados, o combate sem tréguas, àqueles que no seu seio ou do exterior pretendam transformar o MP num corpo amorfo de funcionários ou comissários políticos obedientes, desmerecedores do estatuto de magistratura constitucionalmente consagrado.
A CRP e as leis nacionais dotaram o sistema judicial português de um MP concebido como uma magistratura autónoma e um órgão de justiça integrado nos tribunais. A União Europeia e o Conselho da Europa têm revelado uma preocupação insistente na definição de um Estatuto para o MP que garanta a sua isenção, objectividade e independência. O TPI e alguns sistemas judiciários nacionais buscam no MP português o modelo de configuração.
Mas só seremos modelo se a autonomia não for, entretanto, esvaziada, ainda mais esvaziada, de conteúdo, reduzida a um mero conceito abstracto. O papel do MP como o órgão de iniciativa do poder judicial é hoje fundamental. Tão fundamental que não é, ainda, independência dos Juízes que preocupa o poder político nem é objecto das engenhosas congeminações de alguns perversos cérebros pensantes do regime. Na área criminal o poder dos Juízes, situado no fim da linha, só se exerce se ao MP, dotado de autonomia interna e externa, forem concedidos os meios legais, humanos e materiais que permitam arquivar o que for de arquivar e remeter‐lhes para julgamento o que for de acusar depois de investigações sérias e exaustivas. É pois da independência do poder judicial como um todo que se trata quando se fala da autonomia do MP!
No actual cenário de ataque despudorado à autonomia do MP por via das recentes alterações ao Estatuto, num retrocesso sem precedentes nestes 35 anos de democracia, a defesa da configuração constitucional e legal encetada com determinação pelo SMMP começa a obter resultados. Confirmando‐se aquilo que sempre afirmámos, o repúdio da concepção do MP decorrente das últimas alterações ao EMP não constitui uma questão corporativa. Vai muito além disso, é um problema de cidadania, implica com a estrutura do Estado de Direito Democrático, e diz respeito a todos e a cada um de nós enquanto cidadãos. Compreenderam‐no bem todos os partidos da oposição e deputados independentes, da esquerda à direita do leque parlamentar, que subscreveram requerimentos para fiscalização abstracta sucessiva daquelas normas do EMP. Aguardaremos com serenidade, a decisão do Tribunal Constitucional. Mas a adesão já manifestada pelos grupos parlamentares faz‐nos acreditar que a sociedade portuguesa está consciente dos perigos que resultariam da perda da autonomia do MP.
Historicamente, a par do exercício da acção penal, o MP português tem vindo a assumir um significativo número de funções para a defesa da legalidade, da igualdade dos cidadãos perante a lei, e da concretização dos direitos sociais dos cidadãos. O mérito da intervenção de cariz social do MP no âmbito do direito do trabalho ou do direito dos menores e da família tem vindo a ser reconhecido e enaltecido por entidades dessas áreas, algumas aqui presentes, que a consideram insubstituível. O desenvolvimento de uma cultura de diálogo e de colaboração com várias entidades dessas e doutras áreas, a abertura do SMMP à sociedade civil, sem preconceitos, complexos ou retraimentos injustificados, é um dos objectivos principais desta direcção. Só comunicando e interagindo poderemos questionar‐nos, fazer passar e enriquecer o conteúdo das nossas mensagens.
Na área do direito do trabalho, onde assume o patrocínio dos trabalhadores e das suas famílias a intervenção do MP é, hoje mais do que nunca socialmente relevante e imprescindível. Desde logo ao nível da acção de contrato individual de trabalho onde a experiencia e o conhecimento, a especialização empírica dos magistrados do MP são postas ao serviço dos patrocinados e, assim, da Comunidade, conferindo equilíbrio a uma relação contratual naturalmente desigual. Em matéria de acidentes de trabalho só esses conhecimentos e experiencia dos magistrados do MP numa matéria tão técnica e especifica poderá, quer na fase conciliatória quer contenciosa, assegurar aos sinistrados uma protecção que permita enfrentar eficazmente os departamentos médicos e de contencioso altamente sofisticados e organizados das seguradoras às quais os empresários e as empresas endossam por força de lei as responsabilidades decorrentes dos acidentes de trabalho. Na área laboral a intervenção equilibrada do MP, com recurso a mecanismos processuais previstos no CPT, permite obter em sede de conciliação acordos entre trabalhadores e entidades patronais e/ou seguradoras, resolvendo uma larga percentagem de conflitos e evitando a fase contenciosa. Caberá ao SMMP alertar publicamente e desenvolver contactos institucionais para evitar o prejuízo para o interesse público da introdução de mecanismos de mediação cujos resultados, como era de prever, têm vindo a ser o prejuízo dos mais desprotegidos. O SMMP opor‐se‐á a esse projecto de esvaziamento das funções do MP no âmbito laboral.
Na área do direito dos menores e da família a intervenção do MP é altamente valorizada e deverá ser reforçada. A sinalização de situações de menores em risco, a promoção e acompanhamento das soluções, em colaboração com os técnicos da área numa articulação que necessita ser afinada e reforçada, readquire ainda mais relevância em época de crise. Os problemas dos menores e das famílias, a violência doméstica, não escolhem classes ou estratos e escondem‐se muitas vezes onde menos se espera. O MP tem que estar na primeira linha da defesa do «superior interesse da criança». Mas a crise económica exige o reforço dos mecanismos de detecção e da capacidade de resposta institucional. Se há área no MP onde a vocação e a sensibilidade dos magistrados, a par da especialização, são fundamentais é, seguramente, a dos menores e família.
A acção do MP na área da jurisdição administrativa não tem sido suficientemente valorizada. É inestimável o contributo do MP para a defesa do interesse público e da comunidade em áreas como o ambiente e o urbanismo, a defesa da paisagem irremediavelmente alienada, quase sempre a troco de nada que reverta para a comunidade. A preservação da autonomia externa e interna são fundamentais também nesta área em que o MP, como defensor da legalidade democrática, se debate contra actos da administração central e local que violam legislação e regulamentação nacional e local que delas próprias emanou. Defendemos o reforço da capacidade de resposta e de intervenção do MP nesta área. Uma intervenção equilibrada, sem fundamentalismos exacerbados, que pondere o interesse público e os valores que a legislação visa proteger, pedagógica, mesmo de diálogo e de aconselhamento, mas também implacável quando tiver que o ser.
Também na área cível a acção do MP deverá ter papel de relevo desde logo no controlo da legalidade das decisões judiciais por via do recurso. O MP terá que se dotar, nesta área, de estruturas que lhe permitam reagir em defesa da legislação nacional e comunitária protectora dos interesses difusos, desde logo dos direitos dos consumidores.
A riqueza e diversidade das áreas de intervenção do MP exigem ao MP que se reorganize internamente. Insistiremos pelo que há muito o SMMP defende, sem ser ouvido - a especialização dos magistrados; a formação específica como condição de acesso e de permanência no cargo (as ultimas alterações ao EMP ao fazerem depender o preenchimento dos lugares das escolhas baseadas em critérios pessoais em vez de assentes no concurso e na avaliação curricular consagram um enorme retrocesso nestas matérias); a formação contínua; a criação ao nível da PGR de estruturas e mecanismos de coordenação para as várias áreas de actuação.
A PGR terá que ser capaz, será capaz com certeza, e contará, querendo, com a nossa colaboração, de organizar estruturas e mecanismos de coordenação apropriados ao estudo, investigação e apoio a todos os magistrados do MP, designadamente nas áreas que exigem conhecimentos especializados, aptos a coordenar áreas concretas de acção do MP. Duma magistratura hierarquizada como o MP espera‐se que não negligencie estes aspectos. Aí está um aspecto da organização interna do MP em que as virtualidades duma estrutura hierarquizada não são devidamente potenciadas. Só assim o MP poderá prosseguir o seu papel constitucional de instrumento de defesa da legalidade democrática, do interesse público e dos direitos dos cidadãos.
Mas o MP tem particulares responsabilidades no âmbito da acção penal, a parte mais visível e mais incómoda das funções que exerce, mas também a mais vulnerável e por isso a mais exposta à crítica e a interesses de toda a ordem. Por isso, merecerá do SMMP especial atenção neste mandato. Preocupa‐nos aquilo a que chamamos de falta de “energia investigatória” do MP. Devido a razões endógenas e exógenas complexas, de vária ordem, o MP está hoje acantonado, limitado nas suas capacidades de investigação, sem a capacidade, a motivação e os meios indispensáveis para exercer de forma plena a acção penal. O profissionalismo, o esforço, o trabalho, o brio dos magistrados do MP que discretamente, por esse país fora, ainda vão resistindo às dificuldades, às frustrações e à falta de motivação serão inglórios e inconsequentes se não conseguirmos libertar‐nos da teia em que nos vão envolvendo, com limitações legais e operacionais de toda a ordem. Face a um crime progressivamente organizado, estruturado, globalizado, profissionalizado e institucionalizado, as alterações ao Código Penal e ao Código de Processo Penal, a Lei de Política Criminal, a Lei de Organização da Investigação Criminal, a Lei de Responsabilidade Civil Extracontratual do Estado e Demais Entidades Publicas, limitam e condicionam a investigação e o exercício da acção penal pelo MP.
Ora o MP não será verdadeiramente autónomo, por mais que se proclame o contrário, enquanto persistir o actual modelo de organização da investigação criminal que afasta o MP dos órgãos de polícia criminal, com dificuldades de coordenação de toda a ordem, num sistema bicéfalo que processualmente confere ao MP a titularidade do inquérito criminal mas faz depender os órgãos de polícia criminal da tutela política, expondo‐os às naturais vicissitudes inerentes à alternância democrática. Os resultados da coordenação entre magistrados e polícias no terreno não podem ficar dependentes de razões subjectivas, aleatórias, do bom ou mau relacionamento casuístico entre uns e outros. O sistema terá que evoluir de forma a atribuir ao MP a efectiva titularidade do inquérito em coordenação e conjugação mais directa, mais próxima e mais colaborante com os órgãos de polícia criminal, reforçando os níveis de eficácia. Não é possível atribuir ao MP as actuais responsabilidades ao nível da investigação criminal e da lei de política criminal num sistema e num ambiente que cultivam e desenvolvem o espartilho entre o MP e os órgãos de polícia criminal. Um sistema em que coexistem órgãos de polícia criminal que não só não coordenam em termos operacionais e de partilha de informação como muitas vezes até rivalizam entre si. Onde escasseiam os meios humanos e materiais de toda a ordem necessários à realização de perícias e exames.
Onde ao encurtamento dos prazos de inquérito não correspondeu um investimento dos meios disponíveis.
A um sistema de organização da investigação criminal inadequado acresce um processo penal incapaz de dar a resposta que dele se espera e exige.
É hoje claro para todos o desequilíbrio entre as garantias de defesa do arguido e a desprotecção da vítima, dos interesses colectivos e da comunidade. Um processo penal caracterizado pela falta de capacidade de resposta ao aumento da criminalidade e à sofisticação do crime. Falta‐nos um processo penal que, salvaguardadas as garantias de defesa do arguido, cumpra a sua função de defesa da comunidade e de exercício do poder/dever de julgar e punir que compete ao Estado. Garantias de defesa do arguido em certos aspectos mais aparentes que reais pois o próprio arguido fica cativo e enredado na morosidade e falta de agilidade dos mecanismos processuais previstos. Persiste‐se num processo penal que embaraça o objectivo de descoberta da verdade material, pressuposto fundamental indispensável à punição, em favor de uma teia de formalismos, de escapatórias e incongruências que comprometem a realização duma justiça célere e compreensível.
Como resultado temos um MP e órgãos de polícia criminal cuja acção se dirige para a investigação da grande massa de desprotegidos e menos afortunados, limitando‐se a acção penal a certos patamares, excluindo‐ se dela os mais poderosos e influentes. O princípio constitucional da igualdade dos cidadãos perante a lei, constitucionalmente consagrado, apresenta‐se como uma miragem. A sensação cada vez mais enraizada nos cidadãos é a de existência de margens de impunidade na sociedade portuguesa.
Não se estranhe por isso a desacreditada imagem dos tribunais e dos magistrados perante os cidadãos. Os tribunais, os magistrados do MP e os operadores judiciários em geral são avaliados pela comunidade por responsabilidades que não lhes cabem, por políticas de justiça erráticas com objectivos no mínimo imperceptíveis.
Mas o MP também precisa de se reorganizar internamente. O SMMP combaterá a imagem de paralisia, de incompetência, de incapacidade, associadas a um “Ministério Público arquivador” que faz “que anda mas não anda”. A reestruturação interna passa, além do mais, pelo repensar das lideranças que não tem tido, pela adequação das vocações e das experiências profissionais aos cargos, pela especialização, e, como instrumento, pelos concursos com avaliação de currículos e experiências profissionais. Num momento de reorganização judiciária, com a criação de novos DIAP´s, a energia investigatória que o Ministério Público carece impõe que as lideranças sejam questionadas, que os resultados do respectivo trabalho de gestão e coordenação sejam seriamente avaliados. Os magistrados de base não podem continuar abandonados à sua sorte, sem apoios, sem lideranças, que assumem, por vezes até publicamente, posições contrárias, constrangedoras e comprometedoras da imagem do MP e do trabalho dos seus magistrados.
O sentido das últimas alterações ao Estatuto do Ministério Público introduzidas a propósito do «Mapa Judiciário» justifica a pergunta: quem receia o mérito e a competência da magistratura do MP e dos seus magistrados? Ao SMMP, cabe, nos termos do seu Estatuto (artigo 6.º, n.º 3) pugnar pela dignificação da magistratura do MP e pelo aperfeiçoamento e democratização do aparelho judiciário. A busca do mérito e do reforço da aptidão e competência dos magistrados do MP individualmente considerados, e da capacidade de resposta do MP enquanto corpo hierarquizado, constitui uma das nossas preocupações e responsabilidades.
O sistema de inspecções do MP deverá assumir‐se como o principal meio de sinalização das dificuldades, deficiências e insuficiências dos magistrados e dos serviços do MP. A inspecção não pode continuar a ser encarada como um repositório de magistrados sem outra colocação, como um serviço de segunda categoria, que admite excepções a padrões de qualidade e quantidade que têm que ser comuns a todos os inspectores, num ou noutro caso com menos respeito pelo trabalho dos magistrados, por vezes submetidos a inspecções incompetentes, por isso injustas, porventura mesmo que por excesso, ou sem a inspecção a que têm direito, com todas as consequências inerentes. Os magistrados do MP merecem e exigem mais respeito! Ao SMMP cabe a responsabilidade de combater este estado de coisas, alertando publicamente, e suscitando junto do CSMP e da PGR as alterações urgentes necessárias.
Pugnamos pela valorização dos inspectores e do sistema de inspecções, com propostas muito concretas que constam do nosso programa, e que são no essencial o resultado de estudos e trabalhos que se têm vindo a fazer no MP, também com a colaboração e empenho do SMMP.
A mesma cultura do mérito e da responsabilidade leva‐nos a assumir com determinação que a única entidade a quem reconhecemos competência e capacidade para seleccionar e preparar magistrados do MP é ao Centro de Estudos Judiciários. Repudiamos e combateremos publicamente o recurso reiterado à famigerada figura do “Representante”, ou seja, o recurso a licenciados em direito não magistrados recrutados pela PGR e colocados nas comarcas onde não há magistrado. Actualmente estão colocados cerca de 40 representantes. Receia‐se que a amplitude do movimento de magistrados que se acaba de concretizar, fora do tempo próprio, abra a entrada a novos representantes. Seria, a concretizar‐se, a pior solução para o problema da falta de quadros do MP. Da PGR espera‐se que faça uma avaliação das necessidades a esse nível e que se bata pela solução que mais prestigie o MP e reforce a sua capacidade de resposta. Não está em causa o empenho dos licenciados em direito escolhidos para exercerem essas funções. Está em causa a sua falta de preparação ao nível da formação complementar à licenciatura em Direito, formação que só o CEJ com o seu reconhecido grau de exigência na fase teórica e de estágio pode transmitir. O SMMP bater‐se‐á para que este problema se resolva definitivamente lembrando que também neste caso a solução mais fácil e acessível não será, não seria, a mais adequada.
Preocupa‐nos que os movimentos anuais de magistrados do MP continuem a fazer‐se com métodos arcaicos potenciadores de erros e susceptíveis de suspeições e arbitrariedades. Não se percebe que o concurso anual de professores que envolve muito maior número de candidatos e opções se faça através de um moderno sistema informático, e que a PGR continue sem poder dispor de um sistema informático capaz de suportar um movimento de algumas dezenas de magistrados que respeite as normas estatutárias em vigor. Ainda em nome da transparência dos movimentos é hora do CSMP deliberar a publicação das notações dos magistrados, como já acontece com os Juízes por deliberação do Conselho Superior da Magistratura. Os movimentos devem obedecer a regras claras, objectivas, previamente definidas e cumpridoras das regras básicas do Procedimento Administrativo.
Mas não é só o MP que tem de reforçar a sua capacidade de resposta.
É o sistema de Justiça no seu conjunto que tem que evoluir e melhorar.
Pela nossa parte é tempo de dizer basta.
Não estamos mais disponíveis para assumir responsabilidades que não nos cabem. É tempo de dizer que não nos revemos na justiça que temos.Esta não é a nossa justiça. Não é a justiça que queremos nem como magistrados nem como cidadãos que também somos.
Não haverá mais lugar a atitudes defensivas, corporativas, de defesa de um sistema de justiça com elevados níveis de inoperância e ineficácia. De defesa de um sistema de justiça em que os instrumentos legais disponíveis não permitem rentabilizar o trabalho dos magistrados do MP e dos operadores judiciários em geral, nem elevar os seus níveis de eficácia e de produtividade. Um sistema em que genericamente e por regra, que comporta excepções, se trabalha muito e com empenho, mas cujos resultados não são os desejáveis. O volume de trabalho não tem correspondência ao nível dos resultados. Os níveis de insatisfação e de frustração dos que nele trabalham, magistrados, advogados ou funcionários são cada vez maiores.
Um sistema judiciário que em vez de se afirmar como alavanca do desenvolvimento económico e do progresso constitui antes um entrave ao investimento e à criação de relações de confiança entre os agentes económicos. Temos um Estado que ao nível da acção executiva não é sequer capaz de conceber e disponibilizar um sistema coercivo em que a autoridade do Estado permita aos credores cobrarem os seus créditos para poderem satisfazer os débitos, permitindo‐se uma sucessão em cadeia de efeitos negativos que mina a confiança dos agentes, prejudica os empresários e os trabalhadores, desincentiva o investimento e compromete o desenvolvimento
Não contem com o SMMP para disfarçar esta realidade. A pior das atitudes que se pode ter é ignorá‐la qual doente que evita o médico com receio do diagnóstico e do tratamento
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Não é possível melhor justiça com falta de meios e instrumentos de trabalho. E não é da falta de meios materiais e operacionais que falamos. O nosso principal instrumento de trabalho, o principal instrumento de trabalho de qualquer jurista, e o que mais falha, são as leis, sobretudo as processuais. Nunca a desadequação das leis foi ou será desculpa para os magistrados do MP se empenharem menos. Trabalhamos com as leis que temos. Mas não queiram que digamos, não diremos, que os meios que temos são os suficientes e os adequados.
Crescemos em democracia. Os deveres de cidadania numa sociedade civil que se pretende rica e participada impõem‐nos, impõem ao SMMP que alerte, opine, critique, sugira, proponha.
Não se pense, contudo, que estamos cépticos ou descrentes. A melhoria será possível se todos nos consciencializarmos que a situação actual do nosso sistema de justiça não é benéfica para ninguém. Nem mesmo para os que, iludidos, se deixem tentar por vantagens imediatas, protagonismos inconsequentes ou ambições pessoais, esquecendo que a médio e longo prazo também perderão, todos perderemos.
As soluções para a crise da justiça dependem da vontade política. Só com o empenho de todos os partidos, no governo ou na oposição, se conseguirá inverter este trajecto de crise do sector da justiça que o passar do tempo tem acentuado e agravado.
Pela nossa parte aqui manifesto desde já a nossa disponibilidade para o diálogo e a colaboração com todos.
Com o poder político, Assembleia da República, Governo e partidos estamos disponíveis para discutir as nossas e as vossas ideias e propostas.
Não guardamos ressentimentos nem somos dados a cultivar traumas ou rancores. Antes estamos abertos a participar e colaborar, de espírito aberto, com sentido de responsabilidade na concretização de soluções que o actual estado de coisas exige e impõe.
Assim encontremos do lado dos nossos interlocutores a mesma capacidade, vontade política, e disponibilidade para ultrapassar bloqueios e encontrar soluções.
Ao Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Justiça, aqui presente também em representação do Sr. Ministro da Justiça, permita‐me dizer‐ lhe que a sua vinda aqui, na actual conjuntura, num cenário onde se cruzam relações tensas e delicadas, só realça o seu espírito democrático e a lucidez que tem em não confundir a divergência das ideias com o do saudável relacionamento institucional. Essa postura e o espírito de colaboração que tem evidenciado, no quadro das suas competências e atribuições, têm permitido prevenir e resolver algumas situações, por vezes pendentes há vários anos. No que respeita ao MP refiro uma como exemplo - o pagamento de várias situações de acumulações de serviço, nalguns casos pendentes de 1996!
Que esse empenho e espírito de abertura se mantenham e convivam com tudo o que nos divide.
No interior do MP o SMMP assumirá sem complexos nem constrangimentos uma aproximação a todos os membros do CSMP, (saúdo os aqui presentes) independentemente da sua origem. A este órgão, como órgão superior de gestão das carreiras e de organização do MP, o SMMP dirigir‐se‐á sempre que o imponham razões de interesse para o MP ou para os seus magistrados.
O SMMP, em representação da esmagadora maioria dos magistrados do MP, tem a responsabilidade inalienável de se manifestar perante todos os membros do CSMP, de apresentar sugestões, solicitar esclarecimentos, manifestar inquietações.Dos representantes dos magistrados no CSMP é de esperar, se não de exigir, uma atitude de proximidade e de abertura aos magistrados eleitores e ao SMMP como estrutura representativa dos seus associados.O diálogo deverá ser franco e aberto, assumido sem complexos.
Com os Juízes, com os representantes das suas associações, muito em particular com a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, aqui manifestamos a intenção e a disponibilidade do SMMP para reforçar os canais de diálogo e comunicação. No actual cenário de crise da justiça a prioridade deve ser, só pode ser, a união em torno dos grandes princípios do estado de direito democrático, do reforço da credibilidade do sistema de justiça e dos magistrados judiciais e do MP. Exacerbar questões corporativas, cultivar preconceitos, esgrimir fundamentalismos ou rivalidades entre as duas magistraturas, significaria mais descrédito, menos força. Alguns encarregar‐se‐iam de tirar os dividendos. Não será isso que os associados do SMMP e da ASJP esperam de nós.
O mesmo esforço de união em torno dos grandes princípios do estado de direito democrático e do reforço da credibilidade e da capacidade de resposta do sistema de justiça faremos com os Advogados portugueses. Os Advogados são profissionais liberais. Diferentemente dos outros operadores judiciários só o desenvolvimento económico, a fluidez do mercado, a multiplicação das relações comerciais, a riqueza, características dos estados civilizados, modernos e desenvolvidos vos trarão mais e melhores oportunidades e compensações. Se o sistema de justiça como factor de desenvolvimento económico é importante para todos os operadores judiciários é‐o ainda mais para os Advogados portugueses. Daí a dificuldade em entendermos os discursos dos que alinham na deslegitimação do poder judicial, na descredibilização do judiciário, na cultura da conflitualidade, na cedência às compensações imediatas, como se no mundo da justiça vivêssemos todos em compartimentos estanques e com interesses inconciliáveis ou contraditórios. Nada mais errado. O SMMP está disponível para colaborar com os Advogados portugueses, numa atitude construtiva de resolução de problemas. Recusaremos, porém, contribuir para alimentar protagonismos ou ambições pessoais.
Aos investigadores dos OPC, ao Presidente da ASFIC e de todas as associações do sector, dizemos que a nossa obrigação é trabalharmos em conjunto e entender‐nos. As nossas funções completam‐se para um objectivo comum. Em termos de acção penal o êxito de uns será o dos outros. Só o fracasso levará à desculpabilização e ao conflito.
Aos Funcionários judiciais, ao Presidente do SFJ, recordo que são peça fundamental do sistema, digo‐vos que podem contar connosco e que também temos projectos e propostas para vos fazer.
Com a comunicação social credível manteremos uma relação aberta e descomplexada. O SMMP desenvolverá um espírito de colaboração responsável entre dois universos, o da justiça e o da comunicação social, que têm regras próprias, nalguns casos inconciliáveis, mas complementares e ambos imprescindíveis à democracia e ao Estado de Direito Democrático. Privilegiar o relacionamento com o jornalismo sério e responsável, no respeito das regras específicas de cada um, será a atitude que nos norteará neste âmbito.
O que seria da democracia sem uma imprensa livre?
Aos magistrados do MP digo que este Sindicato é vosso e será aquilo que vocês maioritariamente quiserem. A Direcção contará com todos pois todos seremos ainda poucos para ajudar a dignificar e a credibilizar o MP, os Tribunais, e a Justiça.
Contrariamente ao que por vezes se faz passar o MP tem muitos magistrados excelentes, profissionais capazes, isentos e responsáveis. Contamos com todos, com o vosso profissionalismo, com a vossa capacidade de relacionamento com o público e com os outros profissionais do foro, em resumo com o vosso exemplo, para nos ajudarem a fortalecer a imagem do MP perante os cidadãos e a comunidade.
Move‐nos a defesa do MP e dos seus magistrados. Sabemos o que queremos e o que determinada e firmemente rejeitamos, custe a quem custar. As ideias que temos para o MP constituem convicções inabaláveis, sustentam a nossa energia e determinação, e não cederão perante temores reverenciais, amizades pessoais, cumplicidades de qualquer tipo, ameaças ou perseguições que, eventualmente, pudessem acontecer. Acima de tudo somos e gostamos do MP e do que fazemos, e queremos poder gostar ainda mais.
Preservaremos a unidade do MP. Mas não a todo o custo. Seremos os últimos a precipitar divisões internas. Não temos dogmas, mas temos convicções e defendemos princípios quanto ao MP português que partilhamos com a esmagadora maioria dos colegas. Mais uma vez agora, a propósito das alterações ao paradigma constitucional do MP por via do EMP, os magistrados do MP tem manifestado, com coragem, a sua unidade e coesão interna. Até hoje 1138 magistrado do MP de todos os níveis hierárquicos sindicalizados e não sindicalizados assinaram já a Petição. Estamos unidos e não divididos. Não estamos contra ninguém. Acreditamos que ninguém estará, no seio do MP, contra nós, contra o MP.
Aproximar‐se‐ão e contarão com o nosso apoio todos os que no MP ou fora dele contribuírem para fortalecer o estatuto constitucional do MP, reforçar a sua autonomia relativamente ao poder político, dar‐lhe mais conteúdo e efectividade. Afastar‐nos‐emos, mesmo publicamente, assumiremos rupturas e distanciamento, com todos os que tiverem o percurso inverso.
Ao Presidente cessante, António Cluny um agradecimento institucional pelo melhor de ti mesmo com que sempre te empenhaste na defesa e dignificação do MP democrático. Constarás para sempre na história do SMMP como figura incontornável. Um agradecimento também pessoal pela confiança, pelo apoio, pela amizade que não regateaste e que não dispenso no futuro. Os associados e os actuais corpos sociais estão‐te gratos. Agora que te livras do estigma que às vezes recai sobre os dirigentes do SMMP, donde sais pela porta grande, espero que outras portas se te abram. Os mais atentos não desprezarão os teus conhecimentos e a tua experiencia.
A todos os meus colegas da Direcção quero‐vos dizer que é uma honra liderar esta equipa. Será uma direcção descentralizada, de responsabilidades solidárias e repartidas, onde todos terão espaços de intervenção. Vamos todos juntos vencer este desafio.
Uma palavra final de agradecimento à direcção do CEJ, na pessoa da Professora Anabela Rodrigues pela elegância e simpatia com que nos recebeu, e que constituem um exemplo. Mais que uma questão logística, agora que já temos uma sede com condições, o acto de posse no CEJ deverá ser entendido como um gesto simbólico do nosso reconhecimento à função desta instituição na selecção e formação dos magistrados do MP portugueses.
A todas as entidades oficiais e altas personalidades presentes que não referi expressamente sei que me entenderão - a vossa presença neste acto de posse é por si só mais significativa e importante que qualquer palavra.
Aos amigos não se agradece. Vocês já sabem ‐ conto com o vosso apoio crítico.
O SMMP fica grato a todos pela vossa presença que muito nos honra.
Lisboa, 16 de Abril de 2009
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O discurso da tomada de posse do Desemb. António Martins encontra-se aqui (está configurado em formato que não consigo editar - certamente por inépcia minha).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cavaco recebe presidente do sindicato dos magistrados do MP

«O anúncio de João Palma, que não precisou a data da audiência remetendo essa informação para a Presidência da República, foi feito no programa Grande Entrevista da RTP1.
O magistrado referiu que a Presidência da República lhe comunicou hoje que Cavaco Silva o irá receber no Palácio de Belém. Contudo, questionado sobre a data, reservou a sua «comunicação para a Presidência da República».
O pedido de audiência foi dirigido no dia 30 de Março ao Presidente da República, com «carácter de urgência», dois dias depois de o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público ter reafirmado existirem pressões sobre os magistrados envolvidos na investigação do caso do licenciamento do empreendimento comercial Freeport, em Alcochete.
Posteriormente, o Conselho Superior do Ministério Público deliberou, por unanimidade, instaurar um «processo de inquérito para esclarecimento de factos e afirmações» relacionados com as invocadas pressões.
João Palma foi eleito novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público no dia 28 de Março, sucedendo a António Cluny. »
Notícia aqui.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Titulares do inquérito Freeport recusam-se a assinar documento que "ilibaria" Lopes da Mota

Freeport: Magistrados reafirmam que sofreram pressões

Os procuradores titulares do inquérito Freeport reafirmaram, esta quinta-feira, junto do procurador-geral da República e do presidente do Eurojust, que este os pressionou, na semana passada, a diligenciar o arquivamento do processo.
Segundo apurou o JN junto do Ministério Público, os procuradores Paes Faria e Vítor Magalhães recusaram-se a subscrever um documento, que a Procuradoria-Geral da República estaria disposta a elaborar e divulgar, em que assumiriam não ter sofrido quaisquer pressões de Lopes da Mota, presidente do organismo europeu que zela pela coordenação judiciária e que tem sede em Haia.
Paes Faria e Vítor Magalhães, colocados no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, "vão com a sua versão até onde for preciso", garantiu uma fonte, que pediu anonimato.
A reunião de ontem, convocada pelo procurador-geral da República, Pinto Monteiro, começou às 16 horas e terminou uma hora e 40 minutos depois, sem declarações públicas. A assessora justificou que se tratara só de "uma reunião de trabalho sobre o Freeport".
Mas foi o próprio procurador--geral da República quem, anteontem, inflacionou a importância do encontro, ao justificá-lo com a necessidade de esclarecer se a conversa entre Lopes da Mota e Paes Faria e Vítor Magalhães, na segunda-feira da semana passada, fora "uma brincadeira estúpida ou algo mais". Declarações feitas por Pinto Monteiro à edição online da revista "Sábado", no dia em que, contraditoriamente, emitiu um comunicado a negar quaisquer pressões sobre os magistrados.
É a segunda vez que é posta em causa a conduta de Lopes da Mota, ex-colega de José Sócrates no primeiro Governo de António Guterres. Lopes da Mota foi já alvo de um processo disciplinar, por suspeitas de ter fornecido à presidente da Câmara de Felgueiras, Fátima Felgueiras, uma cópia da denúncia que daria lugar à investigação do chamado caso do "saco azul" da autarquia, antes de a Polícia Judiciária iniciar a investigação. O processo acabou por ser arquivado.
Ontem, a reunião na PGR concentrou a atenção dos media, mas as fontes ouvidas pelo JN defenderam que o presidente do Eurojust foi só "veículo de pressões alheias, dirigidas ao mais alto nível".
De resto, depois de Pinto Monteiro vir a público falar sobre Lopes da Mota, o novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, João Palma, deixou claro ao JN, anteontem, que não via razões para cancelar o pedido de audiência feito ao presidente da República. João Palma quer denunciar a Cavaco Silva todas as fontes das pressões.
O assunto mereceu ontem a atenção de destacados socialistas. Mário Soares (ver entrevista ao lado) optou por criticar, em declarações aos jornalistas, no Porto, as fugas de informação do processo, que se centra nos contornos da intervenção do actual primeiro-ministro, José Sócrates, na viabilização do empreendimento Freeport. Já o líder parlamentar do PS, Alberto Martins, afirmou que Sócrates está a ser vítima de "calúnia", "intriga" e "maledicência" de quem o quer envolver no caso.
Notícia aqui.

Magistrados do MP ignoram PGR

João Palma, eleito no sábado presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), tem vindo a denunciar pressões sobre os magistrados. Seria natural que desse conta das suas preocupações ao procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, mas Palma decidiu ir directamente ao Presidente da República, a quem pediu uma audiência com carácter de urgência.
Palma não diz quem pressiona, nem quais os motivos. Mas tem tudo a ver com um só caso: o Freeport de Alcochete. E a ida de Palma a Belém, sem falar com o PGR, é o sinal claro da desconfiança que neste momento os magistrados têm em relação a Pinto Monteiro. O presidente do SMMP, contactado ontem pelo PÚBLICO, disse que não fará mais comentários até à sua tomada de posse, prevista para dia 16 de Abril. É isso que diz também o lacónico comunicado do SMMP a anunciar o pedido de audiência ao chefe de Estado. Porém, no dia em que foi eleito, afirmou que "as pressões sobre os magistrados estão a atingir níveis incomportáveis" e ameaçou denunciá-las. É isso que vai fazer quando se encontrar com Cavaco Silva.O PÚBLICO contactou também António Cluny, ainda presidente do SMMP, que não quis prestar declarações. Também ele já tinha denunciado pressões sobre os magistrados, negadas depois por Pinto Monteiro, que também não atendeu os telefonemas do PÚBLICO.
Arquivar ou não
No sábado, o jornal Correio da Manhã revelou que os magistrados que lideram a investigação ao caso Freeport estão a ser pressionados para arquivar o processo. Revela mesmo que esses magistrados - Vítor Magalhães e Paes Faria - foram ameaçados com prejuízos futuros para as suas carreiras e foram confrontados com a tese de que os factos que indiciam o envolvimento do primeiro-ministro José Sócrates estão prescritos. E esses factos são a possibilidade de o licenciamento do Freeport ter sido feito mediante o pagamento de uma verba, como admitiu o intermediário Charles Smith no DVD divulgado no sábado pela TVI, em que dizia que José Sócrates era "corrupto". O primeiro-ministro repudiou veementemente o conteúdo do DVD, Smith assegurou depois que nunca injuriou José Sócrates, mas a TVI assegura que o intermediário confirmou como verdadeira a conversa à polícia inglesa.

Ninguém quer assumir
A situação é grave e, ao que o PÚBLICO apurou, preocupa seriamente os dirigentes do sindicato. Sobretudo porque as pressões têm sido fortes e reiteradas, mas nunca formalmente assumidas pelos seus autores. Os magistrados que investigam o caso Freeport defendem o entendimento de que há ainda matéria em aberto e que carece de ser averiguada, enquanto os seus superiores hierárquicos são de opinião de que não há necessidade de prosseguir com as investigações e que o processo deve ser rapidamente encerrado. A questão é que ninguém quer assumir a responsabilidade por uma decisão desse teor e as orientações no sentido de se proceder ao arquivamento do inquérito têm sido apenas "sussurradas", quando há mecanismos legais para ultrapassar este tipo de divergências. Como estrutura hierarquizada, o estatuto do Ministério Público prevê a possibilidade de os processos serem avocados pelos superiores hierárquicos, que podem também proferir orientações escritas. Neste último caso, os magistrados podem proferir despacho no sentido indicado, deixando expresso que o fazem em obediência às orientações recebidas, mas podem também optar por se recusar a fazê-lo invocando objecção de consciência. E os superiores hierárquicos são a procuradora Cândida Almeida, que dirige o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), e Pinto Monteiro.Além do melindre que resulta do caso Freeport e das personalidades nele envolvidas, esta é uma situação para a qual os dirigentes do sindicato querem chamar a especial atenção do Presidente da República face à recente alteração do Estatuto do Ministério Público. O documento, que tem sido fortemente contestado e deverá ser submetido à apreciação do Tribunal Constitucional, é suspeito de violar o princípio da autonomia dos magistrados, permitindo situações em que possam vir a ser nomeados por confiança pessoal em vez dos actuais mecanismos de concurso. Ora, é precisamente por causa situações como a que agora estará a acontecer com o processo Freeport que os dirigentes do Ministério Público têm alertado para os perigos - e inconstitucionalidade - das alterações ao estatuto. Segundo revelou o Correio da Manhã, o caso Freeport está a entrar numa fase decisiva, em que os investigadores poderão mesmo chamar José Sócrates. O processo relativo ao centro comercial Freeport de Alcochete está relacionado com alegadas suspeitas de corrupção no licenciamento daquele espaço, em 2002, quando José Sócrates era ministro do Ambiente. Neste momento, o processo tem dois arguidos: Charles Smith e o seu antigo sócio na empresa de consultoria Manuel Pedro, que serviram de intermediários no negócio do espaço comercial. O procurador-geral da República vai emitir hoje uma nota sobre o caso Freeport, segundo revelou o gabinete de imprensa da Procuradoria. É a primeira vez que Pinto Monteiro se vai pronunciar sobre o caso depois de, sexta-feira, a TVI ter exibido o que disse ser a gravação de uma conversa entre um administrador do Freeport, o empresário Charles Smith (arguido no processo), e o seu ex-funcionário João Cabral.
No Público via Revista In Verbis aqui.

terça-feira, 31 de março de 2009

Procurador investiga alegadas pressões do director do Eurojust no caso Freeport

«Os procuradores que investigam o caso Freeport explicaram ontem ao procurador-geral da República, Pinto Monteiro, que as pressões para arquivarem o processo partiram do procurador-geral adjunto Lopes da Mota, que preside actualmente ao Eurojust, e que foi secretário de Estado da Justiça no consulado de António Guterres. Em comunicado, o procurador-geral anunciou hoje que “está já a ser averiguada a existência de qualquer conduta de magistrado do Ministério Público, junto dos titulares da investigação”. Para analisar o assunto foi já convocada para o início da tarde de sexta-feira uma reunião extraordinária do Conselho Superior do Ministério Público, tendo também Lopes da Mota sido convocado para comparecer amanhã Lisboa, para esclarecer as eventuais pressões. Contactado hoje, em Haia, pelo PÚBLICO o director do Eurojust, Lopes da Mota, prestou o seguinte depoimento:“Estou indignado e repudio energicamente qualquer tipo de insinuação que vise pôr em xeque o meu trabalho. É um absurdo completo pretender que tentei pressionar quem quer que seja. Na minha qualidade de membro da Eurojust compete-me acompanhar e apoiar a cooperação judiciária entre Portugal e o Reino Unido. Estou constantemente disponível e em contacto sempre que necessário com os magistrados titulares do processo em Portugal, sendo que quem contacta com as autoridades judiciárias inglesas é o meu colega inglês. A minha intervenção limita-se a apoiar a cooperação judiciária, matéria em que se suscitam problemas de direito muito complexos, tendo em atenção a diversidade dos sistemas jurídicos português e inglês e a complexidade das normas internacionais de cooperação aplicáveis. A minha intervenção resume-se a isto e apenas a isto. Desconheço completamente os casos concretos e nem tenho que os conhecer. Nesta matéria ajo a pedido dos meus colegas. E a minha função é apenas apoiá-los e nada mais. Estou em contacto com os colegas e reúno-me com eles quando tal se revela necessário. Só por má-fé é que se pode dizer que eu tive ou tenho procurado exercer qualquer tipo de influência. O meu trabalho é ajudar e nada mais e nem admito que os meus colegas, que são magistrados de elevada craveira profissional, se deixassem intimidar ou ser alvo de qualquer tipo de pressão.»
Notícia aqui.
Nota: A PGR emitiu um comunicado que coloco a seguir aqui.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Pressões sobre magistrados levam sindicato a pedir audiência de urgência ao Presidente da República

«O novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, João Palma, vai pedir uma audiência de urgência ao presidente da República Cavaco Silva. Nos últimos dias João Palma tem vindo a denunciar pressões sobre os magistrados, alegadamente relacionadas com o caso Freeport e que visam, segundo revelou o "Correio da Manhã" levar ao arquivamento do processo.O comunicado do Sindicato é lacónico anunciado apenas o carácter de urgência da reunião. "Até lá a Direcção do SMMP não vai prestar quaisquer declarações", anuncia o curto texto.Por sua vez, o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, anunciou para amanhã uma declaração sobre a investigação ao caso Feeport.»
Notícia aqui.
Nota de 31.03.2009: A PGR emitiu um comunicado. Está aqui.

domingo, 29 de março de 2009

Parabéns, Parabéns...


As associações sindicais das magistraturas foram a votos.

E sem deixar de reconhecer o mérito dos concorrentes, no caso dos juízes, não posso deixar de me congratular com os resultados (até porque integro a lista vencedora - ainda que como suplente, pois o tempo não dá para tudo) - que estão aqui.

O Juiz desembargador António Martins, com o qual tive o enorme gosto de integrar diversos colectivos, é para mim, além de um amigo, uma referência do que deve ser um magistrado no exercício das suas funções.

Quanto ao Dr. João Palma, assisti durante vários meses, diariamente, aos julgamentos no qual ele participava (era auditor de justiça junto da, agora Sr.ª Desembargadora, Dr.ª Isabel Melo Gomes), e ficava sempre fascinado com a sua capacidade de análise da prova produzida. Elegeram um magistrado que, além de competente, sabedor e sagaz, prestigia e prestigiará o Ministério Público.

Por isso, a ambos, e às suas equipas, os meus parabéns.

Notícia aqui e aqui.

Magistrados do Ministério Público denunciam pressões


O novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), João Palma, disse, em declarações ao PÚBLICO, que “as pressões sobre os magistrados estão a atingir níveis incomportáveis” e admitiu a hipótese de as denunciar. Palma, eleito hoje por quase 50 por cento dos votos, assegurou que “as pressões existem” e que há “conhecimento delas”, salientando que “umas são públicas e evidentes e outras, o sindicato reserva-se a oportunidade para as denunciar se for caso disso”.Como prioridade para o mandato que agora inicia sucedendo a António Cluny, João Palma, de 46 anos, natural de Mértola, estabelece a “promoção da mudança” do estado actual da Justiça e a “colaboração” nas alterações necessárias. Como um dos mais importantes objectivos aponta a ultrapassagem de “constrangimentos impostos pelo exterior”, entre os quais os de reformas legislativas como as que resultaram nas leis da política criminal ou da responsabilidade civil. “Ou nos são dados meios para a tutela da acção penal ou então temos de assumir que não temos capacidade de exercer essas funções”, diz, salientando a necessidade da defesa da autonomia do Ministério Público (MP) e a independência dos magistrados, num período em que existem processos judiciais de especial importância para a sociedade portuguesa. No que respeita às relações com o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, que tem sido marcado por alguma tensão, João Palma manifestou o desejo de um “melhor relacionamento” com “respeito mútuo” e “trabalho conjunto” nas várias áreas de intervenção do Ministério Público, tendo em vista a sua “credibilização”. (...)

No programa eleitoral que a sua lista apresentou aos magistrados, João Palma alertava para o facto de “nunca como agora” o Ministério Público ter sido “tão atacado e vilipendiado, alvo de reformas legislativas e campanhas de deslegitimação tão bem orquestradas e institucionalizadas, com cumplicidades inesperadas”, notando que “as verdadeiras motivações dessas campanhas talvez a história se encarregue de as evidenciar, mais cedo do que se pensa”.

Notícia e foto aqui.

domingo, 1 de março de 2009

João Palma: “Governo limita magistrados”



João Palma, candidato único à presidência do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, acusa o Governo de tentar controlar investigações delicadas.
Entrevista Correio da Manhã/Rádio Clube
- A autonomia externa significa a independência do Ministério Público em relação ao Governo, a autonomia interna é a independência dos magistrados enquanto despacham os processos de acordo com a lei e a sua consciência jurídica. Estes são princípios que o sindicato irá defender sempre e que não têm um cariz sindical. Têm a ver com questões constitucionais e de cidadania.
ARF – Foram alterações cirúrgicas (N: ao Estatuto do MInistério Público)?
- Foram cirúrgicas, mas os efeitos são elevadíssimos. Em relação a isso o sindicato tem estado a desenvolver um movimento de alerta para que os cidadãos continuem a ter uma Justiça independente. E essa Justiça independente passa por um Ministério Público independente e autónomo. As nossas posições baseiam-se em pareceres de constitucionalistas que apontam para uma perda muito grande da autonomia dos magistrados.
ARF – Em que matérias?
- Sobretudo em três questões fundamentais. Como dizia o senhor procurador distrital do Porto a partir de agora os magistrados estão contratados a prazo. Isto revela bem o que é que está a acontecer.
ARF – Subscreve essa afirmação?
- Subscrevo e sublinho a dignidade que um procurador distrital teve, ele que viu os seus poderes reforçados. Teve a coragem de dizer que não quer este Ministério Público assim. E isto porque a maior parte dos magistrados do Ministério Público ficam em regime de comissão de serviço. Passados três anos essa comissão só é renovado se o procurador distrital respectivo recomendar a renovação ao Conselho Superior do Ministério Público. Não se trata de perder o emprego, podem é ser afastados daquele cargo.
ARF – Para se perceber bem essa situação, isso significa que se um procurador é incómodo para um autarca, por exemplo, pode ser afastado dessa comarca?
- Em tese pode acontecer. E não interessa se o autarca A ou B pressiona ou não. O que nos interessa é agir ao nível dos princípios e blindar os magistrados do Ministério Público. Seja um magistrado numa comarca como um magistrado na cúpula. Seja qual for o procurador-geral, seja qual for o magistrado o que tem de ser feito é blindá-lo exactamente para evitar pressões. A perda de autonomia interna torna os magistrados de topo alvos de apetecíveis pressões, como é óbvio.
LC – Acha que há uma tentativa do Governo de controlar os magistrados e, através, deles, controlar as investigações?
- Repare que as tensões entre o poder político e os magistrados são tão velhas como o próprio Estado. Não são de hoje, não são deste Governo nem dos anteriores.
LC – Não encontra neste Governo uma tentação especial para controlar?
- O que há, e nós temos assumido isso claramente, por parte deste Governo é uma tentativa muito grande de limitar a acção dos magistrados.
LC – Com que objectivos?
- Estas alterações curtas e precisas ao Estatuto do Ministério Público têm um responsável político, que é a maioria parlamentar do PS o Governo do PS?
LC – Com que objectivos?
- Essa responsabilidade tem de ser assumida. As pessoas não se podem dar ao luxo de legislar e depois ninguém querer assumir essa responsabilidade, como estamos agora. Sabemos quem foi, sabemos que dentro do próprio Ministério Público houve fortes influências para esse efeito, o senhor procurador diz que não tem nada a ver com isso. Se não teve alguém foi nas altas esferas do Ministério Público. É um filho que acaba por não ter pai nem mãe.
LC – Insisto. Quem é que tem interesse em controlar os magistrados?
- Os interesses podem existir já, podem vir a existir no futuro. O que há é uma tentativa de limitação da acção do Ministério Público. O Ministério Público hoje está limitado em todos os sentidos ao nível da investigação criminal. Está limitado quer por via da lei, constrangimentos legais de vária ordem, da lei de responsabilidade civil dos magistrados, da lei de política criminal, da lei processual penal. São limitações com efeitos visíveis ao nível da rua e sentidos por toda a gente. Para já não falar dos operacionais.
(...)- Não falo de processos concretos. Mas há uma tentativa de retirar legitimidade ao Ministério Público. É visível para todos os portugueses.
LC – Da parte do próprio primeiro-ministro?
- Não vou falar do senhor primeiro-ministro por razões que compreende. Agora, cada vez que o Ministério Público tem em mãos um processo delicado por força das pessoas envolvidas ou das matérias de investigação logo surgem tentativas de pôr em causa a legitimidade da acção do Ministério Público e da Justiça. Por isso é que nós dizemos que a blindagem dos magistrados é fundamental.
LC – No caso Freeport o primeiro-ministro falou em poderes ocultos. Acha que é caso para ficarmos todos preocupados com esses poderes por detrás dos processos e investigações? Como é que leu essas declarações?
- Não sei se o senhor primeiro-ministro se estava a referir aos magistrados ou aos jornalistas.
LC – Não se referia a poderes ocultos dentro dos jornais.
- Se o primeiro-ministro se referia a poderes ocultos dentro do Ministério Público é uma afirmação muito grave. Obviamente que o senhor primeiro-ministro não se pode ficar apenas pelas afirmações. Vai ter de explicar isso. O que seria normal é sendo o alvo o Ministério Público que fosse mais explícito.
LC – Acha que devia concretizar sob pena de ficar a suspeita?
- Sem dúvida. Cabala de quem? Do Ministério Público?
(...)
- Ter um processo destes fragiliza só por si. São processos muito delicados e os magistrados têm um menino nos braços que não é fácil de gerir. E exige da parte dos líderes do Ministério Público essa atenção, esse cuidado em tentar proporcionar-lhes as condições para poderem fazer um trabalho sereno e exaustivo. Para investigarem tudo o que houver para ser investigado.
LC – Como é que vê as sucessivas violações do segredo de Justiça no caso Freeport?
- Sabe que normalmente a violação do segredo de Justiça é atribuída aos magistrados.
LC – Injustamente?
- Muitas vezes as violações do segredo de Justiça vêm de onde menos se espera. Muitas vezes as próprias pessoas envolvidas no processo têm interesse em violar o segredo de Justiça. Porque é que são sempre os magistrados os culpados? Os magistrados ou os polícias? É fazer uma interpretação muito primária do que se passa.
ARF – O doutor Mário Soares diz que o segredo de Justiça é uma farsa. Concorda?
- Não iria tão longe. Mas é evidente que é grave sempre que surge uma violação do segredo de Justiça. E os culpados deviam ser responsabilizados. Não é assim, mas devia ser assim.
ARF – Há quem defenda que os culpados são sempre os jornalistas.
- Também não percebo isso, porque os jornalistas escrevem porque alguém lhes dá a informação. Não concordo com isso. O que eu acho que é incompatível é defender-se a publicidade da investigação criminal, ao ponto de se comprometer muitas investigações criminais, como se prevê na actual legislação processual penal, e depois cada vez que há uma violação ai Jesus que se violou o segredo de Justiça. Há qualquer coisa aqui de contraditório. Não se pode é ter sol na eira e chuva no nabal ao mesmo tempo.
LC – Já falou várias vezes nas alterações às leis penais. Essas alterações estão a afectar estes casos, como o do Freeport, BPN e BPP?
- Não posso falar em concreto dos casos que falou. Mas para um investigador a pior coisa que pode acontecer é quererem revelar-lhe as investigações. Se eu me proponho fazer uma busca a um determinado suspeito e entretanto o processo é público é evidente que quando lá chegar não há lá nada de relevante. Se ainda por cima limitam os prazos e não dão meios, nomeadamente à Polícia Judiciária, para se fazerem perícias é evidente que se está a matar a investigação criminal.
ARF – O Ministério Público conta com cerca de 1 300 procuradores. Como é que são inspeccionados?
- Até fica mal sendo eu do sindicato e candidato a presidente do sindicato dizer isto. Mas eu acho que a Inspecção do Ministério Público, a par de inspectores que são consagrados e são respeitados, alguns temidos mais do que outros, tem inspectores que pura e simplesmente dão péssimos exemplos às pessoas que inspeccionam. É de facto uma das questões que preocupa a direcção do sindicato.
ARF – O que é defendem?
- É estranho eu falar disto porque é a avaliação dos colegas. Nós queremos que a inspecção seja eficaz e eficiente. Temos casos de inspectores que não trabalham, mantêm-se ao serviço sem fazerem relatórios de inspecção. Com prejuízo para os outros inspectores e para os magistrados que não são inspeccionados. Há colegas que estão há catorze e quinze anos à espera de serem inspeccionados.
ARF – Quem é que manda na Inspecção?
- Manda o Conselho Superior do Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República. A Inspecção como está não funciona.
ARF – É absurdo ser o sindicato a falar disso.
- É absurdo.
(...)- A Inspecção do Ministério Público não pode ser uma prateleira dourada.
ARF – Isso já acontece há muitos anos?
- Tem se vindo a degradar. Não é uma situação recente. Mas o sindicato não vai deixar cair isto.
Entrevista e foto aqui.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

De novo, o Medo...



... O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público emitiu um comunicado onde afirma que nos últimos tempos (e sublinha que mais uma vez) o Ministério Público e os seus magistrados têm sido alvo das habituais e recorrentes campanhas que acontecem sempre que estão em causa processos ou investigações delicadas em função das matérias ou dos visados. O Sindicato receia ainda uma "intimidação real" na investigação. Ora, isto é para levar a sério. (...)
Significativamente o general Ramalho Eanes denunciou um clima de medo crónico de criticar, em Portugal. O ex-presidente da República é, tal como o actual Presidente, das escassíssimas figuras referenciais da Política Portuguesa cujos actos têm sido testemunha disso mesmo (actos, não meras palavras). É, por isso, para levar muito a sério.
É inaceitável que a vida de uma comunidade supostamente democrática, no início do século XXI, esteja condicionada pelo medo.
As sociedades que caem em caldos de cultura de medos ou que são condicionáveis são sociedades cujo estado de saúde é de alto risco.
Paula Teixeira da Cruz, artigo completo com o título "Alto Risco" e foto aqui.

sábado, 24 de janeiro de 2009

E Sócrates explica...

(imagem retirada daqui)

A notícia aqui:
«O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público reage com satisfação às palavras do primeiro-ministro, que este sábado à tarde clarificou o que quis dizer quando falou na coincidência entre as notícias que surgiram, nas últimas semanas, sobre o caso Freeport e o facto de se estar em ano eleitoral. Porém, António Cluny disse não entender as críticas sobre fuga de informação.
O presidente dos Sindicato dos Magistrados do Ministério Públicou não gostou que José Sócrates tivesse insinuado uma «cabala», colocando em causa a Justiça.
No entanto, este sábado à tarde, o primeiro-ministro esclareceu as suas declarações: «O que eu quis dizer não é que a actuação das instâncias judiciárias não deva correr os seus trâmites normalmente e devem correr ndependentemente de qualquer ciclo eleitoral. Não devem ser suspensas ou adiadas porque estamos apenas em momentos eleitorais».
No entanto, acrescentou, «eu não me referia às diligências, mas àquilo que são as fugas para a imprensa, as notícias públicas sobre essas notícias judiciais. Isso é que é criticável porque violam as normas e as nossas leis, nomeadamente o segredo de justiça».
Perante as palavras do primeiro-ministro, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Cluny, disse à TSF que está «desfeito o equívoco», apesar de sublinhar que não entende as críticas sobre fugas de informação

Cluny pede explicações a Sócrates

(foto retirada daqui)

A notícia aqui:
«O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Cluny, apelou esta sexta-feira ao primeiro-ministro, José Sócrates, que clarifique as afirmações que proferiu sobre o caso Freeport vir novamente a público em tempo de eleições, noticia a Lusa. (...) «Não quero crer que o primeiro-ministro tenha dito isso com segundas intenções, mas, objectivamente, pode ser entendido como uma insinuação sobre a partidarização e politização da investigação», sustentou à Agência Lusa o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Cluny.
Cluny entende que José Sócrates deve «esclarecer o sentido das afirmações, de que não quis insinuar que a intervenção das autoridades judiciárias, que dependem directamente do procurador-geral da República, tivesse outro objectivo que não a busca da verdade». (...) ....o primeiro-ministro manifestou ainda a esperança de que as autoridades judiciais «façam rapidamente o seu trabalho relativamente ao caso Freeport».
(...) o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, António Martins, referiu que «todos os cidadãos têm direito a pedir celeridade à Justiça». «É um direito que qualquer cidadão tem de ter. É natural e é legítimo. A Justiça tem de responder com celeridade a todos os cidadãos», insistiu...»

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